Familiares de presos na Venezuela aguardam após anúncio de libertações sob anistia
"Queremos voltar para casa!": Familiares de presos políticos, acampados há dias em frente aos presídios venezuelanos, exigiram neste sábado (21) a libertação imediata das centenas de pessoas beneficiadas pela anistia.
O Ministério Público solicitou à Justiça a concessão de anistia a 379 pessoas, informou o deputado Jorge Arreaza, que liderou a elaboração da lei de anistia promulgada na quinta-feira.
A medida faz parte do que a presidente interina, Delcy Rodríguez, definiu como um passo rumo a "uma Venezuela mais democrática, mais justa, mais livre".
Rodríguez assumiu o poder após a captura de Nicolás Maduro em uma incursão militar dos Estados Unidos, em 3 de janeiro. A anistia é um projeto defendido por ela em meio à pressão de Washington, com quem está normalizando as relações diplomáticas e cedendo o controle do petróleo venezuelano.
A lei, no entanto, tem sido alvo de críticas de organizações de direitos humanos, que a consideram insuficiente e excludente.
- "Todos são inocentes!" -
Arreaza afirmou que os beneficiados "devem ser libertados (...) entre esta noite (sexta-feira) e amanhã de manhã (sábado)".
"Vamos torcer para que seja verdade", disse Génesis Rojas à AFP do lado de fora dos presídios da Polícia Nacional em Caracas, conhecidos como Zona 7.
Até o momento, os familiares não relataram nenhuma libertação.
Eles estão acampados em frente aos centros de detenção há mais de um mês e meio, desde que Rodríguez anunciou a primeira rodada de solturas com liberdade condicional. Isso beneficiou 448 presos, segundo a ONG Foro Penal, que estima que cerca de 650 permanecem atrás das grades.
"Queremos ir para casa, queremos voltar para nossas casas!", gritava um grupo na madrugada deste sábado em frente à Zona 7. "Até quando esse abuso de poder vai continuar? Libertem-nos, eles são todos inocentes!".
Uma fileira de policiais com escudos antimotim bloqueava o caminho.
"São eles que deveriam nos pedir perdão, os que nos sequestraram, nos roubaram e violaram todos os nossos direitos humanos. Chega de abusos, de tortura, tanto interna quanto externa", disse Yessy Orozco, cujo pai está preso na Zona 7.
- "Ainda esperamos" -
Sábado foi dia de visitas na Zona 7. "Meu marido está bem; iam fazer a barba dele agora mesmo. Graças a Deus ele estava com boa aparência", disse uma mulher, que preferiu permanecer anônima.
"Ele se acalmou bastante porque estava muito nervoso. Ainda estamos esperando; espero que o que Arreaza disse não tenha sido apenas uma brincadeira", acrescentou.
Um grupo de 10 mulheres fez uma greve de fome que durou mais de cinco dias e que mantém apenas uma pessoa. Ela permanece na Zona 7 em um colchão.
"Em recuperação. Sem respostas", diz uma placa. Ela não fala com a imprensa porque "ainda não se sente bem".
Nas proximidades do presídio El Rodeo I, nos arredores de Caracas, familiares temem que os presos tenham convocado uma greve de fome devido às exceções da lei.
Esse presídio abriga aproximadamente 120 detidos, segundo o Foro Penal. Muitos estavam ligados a casos militares que estão excluídos da anistia.
As autoridades ainda não autorizaram as visitas sem exigir explicações.
"Os guardas sempre dizem que vão procurar informações e nos dar respostas, mas (...) muito provavelmente não nos darão informação nenhuma", disse María Carolina Serino, de 57 anos. Ela acabou indo embora.
Muitos esperam que uma comissão parlamentar especial, que analisará os casos não abrangidos pela anistia, os beneficie.
F. Tavares--JDB