Entram em vigor primeiros toques de recolher na França após distúrbios
Os primeiros toques de recolher entraram em vigor na noite desta segunda-feira (19) em várias cidades da França, enquanto o governo, alvo de uma enxurrada de críticas de todo o espectro político, reafirma sua promessa de rigor na resposta judicial aos responsáveis pelos recentes saques e atos de violência.
Em Lyon, Lille e Nice, os toques de recolher começaram entre 20h e 21h (15h-16h no horário de Brasília), apenas em determinadas áreas dessas regiões metropolitanas. Em Lille e Nice, as restrições de circulação afetam exclusivamente menores desacompanhados.
Em Paris, a Praça da República e o bairro de Les Halles, cenário de muitos saques nos últimos dias, ficaram sob as medidas a partir das 23h locais. Também foram proibidas manifestações nesses locais desde as 20h, assim como em outros bairros da capital francesa.
Segundo fontes oficiais, 67 pessoas foram detidas em razão dos distúrbios.
- Sob pressão -
A França continua abalada pelas cenas de caos registradas no último sábado e, em menor intensidade, no domingo, quando manifestantes encapuzados saquearam centenas de lojas e incendiaram a prefeitura de Limoges, no centro do país.
Para conter essa “violência desenfreada”, nas palavras do presidente Emmanuel Macron, as autoridades impuseram toques de recolher parciais em várias cidades.
O objetivo do governo é restabelecer a ordem, ao mesmo tempo em que analisa possíveis falhas na atuação das forças de segurança, como reconheceu o presidente, e busca identificar os responsáveis pelos atos de vandalismo.
O advogado do menor que teve uma mão amputada por uma granada em Saint-Étienne anunciou, nesta segunda, que apresentou uma queixa contra o autor do disparo da granada, assim como contra o ministro do Interior, Laurent Nuñez.
A denúncia contra o ministro foi apresentada ao Tribunal de Justiça da República por “cumplicidade em violência agravada”, indicou em um comunicado Yassine Bouzrou, advogado do jovem de 17 anos gravemente ferido no sábado durante as manifestações.
- “Destruíram tudo” -
A onda de violência ocorreu durante uma grande manifestação contra o alto custo de vida convocada pelas redes sociais no sábado e associada ao movimento dos “coletes amarelos”, que já abalou o primeiro mandato de Macron em 2018 e 2019.
Mas a França não é o único país europeu afetado pelo aumento do custo de vida, especialmente após o conflito no Oriente Médio. Cidades da Bélgica e da Itália também registraram protestos, distúrbios e saques durante o fim de semana.
Esses atos “são inaceitáveis”, ressaltou o porta-voz da Comissão Europeia, Markus Lammert.
Na França, o governo estimou que mais de 3 mil estabelecimentos comerciais foram afetados e pediu às plataformas de revenda on-line que retirem anúncios de produtos provenientes dos saques.
Assia Sanaa, gerente de sete lojas da rede de artigos esportivos Shinzo em Paris, está entre os comerciantes prejudicados.
“De repente, ao anoitecer, chegaram hordas de grupos muito organizados, metódicos, com 20 ou 30 pessoas por vez (...) Destruíram tudo, tudo, tudo, e saquearam e roubaram”, relatou à AFP.
- “O poder desertou” -
Embora o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenha atribuído os distúrbios à imigração, a maioria dos políticos franceses responsabilizou “pequenos grupos de extrema esquerda” por tentar semear o caos.
A seis meses da eleição presidencial, da qual Macron não poderá participar, a favorita nas pesquisas, a líder da extrema direita Marine Le Pen, tenta aproveitar a situação para se apresentar como candidata da ordem.
“O poder desertou completamente”, criticou Jordan Bardella, presidente de seu partido. O ministro Laurent Nuñez reconheceu que a polícia perdeu o controle da situação em “algumas cidades”.
“Quem vai se beneficiar desse caos, senão Le Pen?”, alertou seu rival social-democrata, Raphaël Glucksmann, ao defender uma “resposta firme” do governo e medidas que também atendam às reivindicações dos manifestantes.
Mas o governo não fez nenhum anúncio para amenizar o mal-estar social, embora tenha mantido uma viagem ao Oriente Médio, com o objetivo de assegurar volumes de petróleo e diesel para reduzir os preços no país.
Como prova de que a situação continua tensa, manifestantes bloquearam nesta segunda-feira o acesso ao Museu do Louvre, em apoio ao movimento estudantil que reivindica melhores condições nos colégios desde o fim de setembro.
"É desolador", disse à AFP Sébastien, um turista suíço. "Uma parte de nós entende as reivindicações, mas há outros lugares que podem ser bloqueados, não um espaço cultural", lamentou.
- Ajuste “difícil” -
O movimento dos coletes amarelos também anunciou novas manifestações para o próximo sábado (24), dando continuidade à mobilização que impulsionou em 17 de outubro.
A situação é acompanhada com preocupação fora da França. China e Alemanha recomendaram que seus cidadãos permaneçam atentos.
Os confrontos revelam "até que ponto será difícil para um governo implementar os cortes de gastos" que os mercados consideram "necessários para reduzir o déficit", afirmou Neil Wilson, analista da Saxo Markets.
O governo, que não tem maioria parlamentar, busca aprovar no Parlamento um forte ajuste fiscal de 54 bilhões de euros (306 bilhões de reais) em 2027.
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A.S. Leite--JDB