Líder palestino preso Barghouti poderia liderar 'renovação democrática', diz filho
Após 24 anos de prisão em Israel, o palestino Marwan Barghouti continua sendo o dirigente mais capacitado para unificar seu povo e representa "a esperança de uma renovação democrática", afirmou à AFP seu filho, alarmado com a fragilidade "perigosa" da Autoridade Palestina.
Às vezes chamado por seus apoiadores de "Mandela palestino", Marwan Barghouti, de 66 anos, tornou-se uma figura emblemática de seu povo.
Em junho de 2004, um tribunal israelense o condenou à prisão perpétua após considerá-lo culpado de envolvimento em quatro atentados que deixaram cinco mortos.
Marwan Barghouti nunca recorreu da condenação, já que não reconhece a competência dos tribunais israelenses para julgar um dirigente e parlamentar palestino.
Seu filho, Arab Barghouti, tinha 11 anos em 2002, quando o pai foi preso. Ele não o vê há quatro anos, mas se dedica a defender sua causa e a fazer campanha por sua libertação.
Arab Barghouti, de 35 anos, explica em Londres que seu pai está em regime de isolamento desde o ataque do movimento islamista palestino Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023.
O contato entre os dois ocorre por meio de seu advogado, que o visitou em 12 de abril.
- "Vítima de tortura" -
"Foi então que soubemos que ele havia sido vítima de maus-tratos e tortura", conta Arab Barghouti. "Ele perdeu muito peso, provavelmente 10 quilos", acrescenta. Imagens de agosto o mostraram fisicamente debilitado.
Essas acusações são "falsas" e "totalmente infundadas", afirmou a administração penitenciária israelense, questionada pela AFP.
Segundo o advogado de Barghouti, ele está "como sempre, forte, com a mente muito lúcida e concentrada", explica Arab Barghouti. "Ele sabe exatamente o que está acontecendo e o que precisamos, como palestinos, para avançar".
Os anos de detenção não reduziram sua popularidade, segundo o filho. "Precisamos desesperadamente de uma liderança unificada. E acho que ele encarna isso. Ele concentra a esperança de uma renovação democrática na Palestina, de unidade", afirma.
O rosto do prisioneiro palestino está pintado em inúmeros muros da Cisjordânia ocupada e também esteve presente em Gaza.
Marwan Barghouti, que foi um dos líderes da segunda intifada, a revolta palestina do começo dos anos 2000, é citado com frequência como possível sucessor do presidente Mahmoud Abbas, de 90 anos.
Membro do Fatah, partido de Abbas, ele é considerado uma das poucas figuras que poderiam ser aceitas como líder por todas as facções políticas palestinas, inclusive o Hamas.
Mas não há sinais de que Marwan Barghouti será libertado em breve.
Após a guerra mortal em Gaza e enquanto a colonização continua avançando na Cisjordânia, Arab Barghouti acredita que seu pai consegue manter viva a esperança da causa palestina.
"Não tenho nenhuma dúvida", afirma o filho. "Ele me disse que o desespero é um luxo que os palestinos não podem se permitir, que eu apagasse essa palavra do meu dicionário", acrescenta.
Marwan Barghouti continua acreditando na solução de dois Estados, mas "tenho certeza de que ele não alimenta ilusões", afirma o filho.
"Ele entende que o atual governo israelense está enterrando isso deliberadamente diante dos olhos do mundo inteiro", acrescenta.
"Acho que o principal objetivo de meu pai é, antes de tudo, a liberdade dos palestinos, uma vida com dignidade. E a questão é como conseguir isso", continua.
- Críticas à liderança palestina -
Arab Barghouti se mostra crítico da atual liderança palestina. "Infelizmente, eles não estão em condições de mudar a situação vivida por nosso povo. São incapazes de defendê-lo", lamenta.
"Sei que eles têm muito pouca margem de manobra. Infelizmente, a Autoridade Palestina se enfraqueceu como nunca antes", acrescenta.
Arab Barghouti fala de uma situação "muito perigosa", que poderia desembocar no "caos" na Cisjordânia.
O futuro político de Marwan Barghouti depende, claro, de sua saída da prisão.
No entanto, Israel se recusou a libertá-lo no âmbito das trocas de reféns israelenses por prisioneiros palestinos realizadas desde o início da guerra na Faixa de Gaza.
A razão é simples para Arab Barghouti, que acredita que seu pai representa "uma ameaça política para as ambições do atual governo israelense, que busca um domínio total" sobre a região.
O filho de Marwan Barghouti descarta a hipótese de que o pai jamais seja libertado. "Não é uma opção na qual pensamos", responde.
Quando seu pai sair da prisão, Arab Barghouti diz que quer "trabalhar" com ele para se colocar "a serviço de uma grande visão para a Palestina".
P. Duarte--JDB