Candidatos de campos opostos disputam vaga no 2º turno das presidenciais no Peru
Dois candidatos opostos competem, voto a voto, uma vaga no segundo turno das eleições presidenciais do Peru: o esquerdista radical Roberto Sánchez, que quer romper com o modelo econômico liberal, e o ultraconservador Rafael López Aliaga, ex-prefeito de Lima, que promete uma linha-dura contra a criminalidade.
A apuração parcial dos votos nas eleições de 12 de abril, marcadas por atrasos e denúncias, situa como favorita a candidata da direita Keiko Fujimori, com 17%.
Mas, com milhares de atas impugnadas e centenas de milhares de votos para contar, os resultados definitivos não serão conhecidos antes de 15 de maio, e o desafiante de Fujimori no segundo turno é uma incógnita.
Nesta segunda-feira (20), com 93,6% das atas contabilizadas, Sánchez (12%) e López Aliaga (11,9%) estavam separados por apenas 14.000 votos.
- Sánchez, herdeiro de um destituído -
Montado em um cavalo ou usando um chapéu de camponês, Roberto Sánchez, de 57 anos, reproduz a cartilha vencedora usada há cinco anos pelo ex-presidente Pedro Castillo (2021-2022), de quem se considera herdeiro político.
Psicólogo e parlamentar, foi ministro de Comércio Exterior e Turismo durante o breve governo de Castillo, que terminou quando ele tentou dissolver o Congresso e foi destituído.
Sánchez visita o ex-presidente frequentemente na prisão, onde está desde 2022, condenado a 11 anos de prisão por rebelião.
"Será libertado por nosso governo, em correspondência à prerrogativa presidencial" para indultá-lo, assegurou Sánchez em entrevista à AFP.
Filho de migrantes andinos - sua mãe é de Ayacucho, e seu pai é de Apurímac -, o candidato nasceu em 3 de fevereiro de 1969 em Huaral, povoado costeiro agrícola 75 km ao norte de Lima.
Ele lidera o Juntos pelo Peru, um dos cinco partidos de esquerda que disputaram o primeiro turno, que teve um recorde de 35 candidatos.
"Está no campo oposto de López Aliaga", disse à AFP o cientista político Arturo Maldonado, professor da Pontifícia Universidade Católica do Peru. "É um crítico do modelo econômico", acrescentou.
O Peru é uma das economias mais estáveis da América Latina, com a inflação mais baixa da região.
Se for eleito, Sánchez impulsionará uma nova Constituição para substituir a atual, promulgada durante o governo do ex-presidente autocrata Alberto Fujimori (1990-2000), pai de Keiko Fujimori.
"Há um imenso desejo de mudança" entre as populações marginalizadas, disse, com as quais espera refundar o Peru como um "Estado plurinacional", no estilo do que Evo Morales fez na Bolívia.
Entre seus apoiadores está Antauro Humala, ex-militar que esteve preso por pouco mais de 17 anos por um levante armado que deixou quatro policiais mortos.
- López Aliaga, religioso e trumpista -
Católico conservador e empresário milionário, Rafael López Aliaga adotou o apelido "Porky" por sua semelhança com o personagem suíno de desenhos animados 'Porky Pig' (Gaguinho).
Com 65 anos, é membro do Opus Dei e pratica o celibato.
Foi prefeito de Lima entre 2023 e 2025, e disputa a Presidência pela segunda vez. Com seu nacionalismo cristão e seus acenos a Trump, o líder do partido Renovação Popular tem sido uma das figuras mais visíveis da campanha.
Após os atrasos na votação, ele denunciou o que considerou uma "fraude eleitoral" e ofereceu recompensas a quem aportar provas, apesar de observadores internacionais descartarem irregularidades.
Engenheiro de formação, López Aliaga fez fortuna em setores como finanças, hotéis e ferrovias.
Em uma entrevista recente, ele se definiu como um "gerente cristão, que se dedica à política por amor" e prometeu combater a criminalidade com mão de ferro.
"Todo venezuelano que não estiver legalizado no Peru, vá embora, vá para a Venezuela. Vamos à caça um a um", disse em um discurso, a propósito do que garantiu que será sua primeira medida se for eleito.
Ele propõe assinar um tratado para que os Estados Unidos capturem criminosos no Peru, restabelecer os juízes sem rosto (anônimos), construir prisões na Amazônia e tirar o país da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
"Assim como Trump, é do tipo de político que a gente não imagina moderando-se", afirmou o cientista político Carlos Meléndez.
C. Marques--JDB