Rússia usava gasodutos como 'arma' política, afirma defesa no caso Nord Stream
A Rússia utilizava os gasodutos Nord Stream como "arma" para exercer pressão política e econômica, afirmou nesta quarta-feira (14) o advogado de um ex-oficial ucraniano, o primeiro acusado a ser julgado pela sabotagem dessas infraestruturas energéticas germano-russas ocorrida há quatro anos, na abertura do julgamento em Hamburgo, na Alemanha.
Sergiy Kuznietsov, ex-comandante do Exército ucraniano, de 50 anos, é acusado pelo Ministério Público alemão de "ter elaborado, juntamente com outros militares e a pedido das autoridades ucranianas, um plano para destruir os gasodutos".
"Ele cometeu um crime de guerra ao atacar infraestruturas civis por meios militares", declarou o promotor alemão Stefan Schmidt ao ler a denúncia.
Vestido com terno cinza, camisa branca e gravata, o acusado entrou sorridente na sala, observou um jornalista da AFP.
"Como oficial, ele tem dever de reserva e confidencialidade, o que o impede de se pronunciar sobre determinados aspectos do caso", ressaltou seu advogado, Nicola Canestrini. "Ele precisa se defender de mãos atadas para trás", acrescentou.
"A Rússia comete crimes de guerra nesta guerra, e a Gazprom (gigante russa que controla os gasodutos) participou deles", afirmou categoricamente.
Pouco antes da audiência, dezenas de manifestantes contrários a Moscou exibiram cartazes com a inscrição "A Rússia é um Estado terrorista" e bandeiras europeias em frente ao tribunal.
Detido em 21 de agosto de 2025 na Itália, onde passava férias com a família, o acusado foi extraditado para a Alemanha no mês seguinte.
Investigadores alemães acreditam que ele dirigia um comando composto por mergulhadores profissionais, um especialista em explosivos e uma pessoa encarregada de executar a operação contra os gasodutos.
- Separação de poderes -
Depois de entrar na Alemanha no início de setembro de 2022 com um passaporte ucraniano falso, passando pela Polônia, acredita-se que Kuznietsov tenha chegado a Rostock, porto situado no Mar Báltico, no nordeste do país, a bordo de um veleiro alugado por intermediários, onde supostamente se reuniu com seus cúmplices.
Posteriormente, o grupo teria transportado um potente explosivo militar até as proximidades da ilha dinamarquesa de Bornholm, onde teriam sido colocadas cargas de explosão retardada nos gasodutos antes que explodissem em 26 de setembro de 2022.
Jamais reivindicada e envolta em mistério durante muito tempo, a operação ocorreu sete meses após a invasão russa em grande escala da Ucrânia.
No momento do ataque, os dois gasodutos não transportavam gás.
As autoridades russas já haviam suspendido o fornecimento através do Nord Stream 1, provavelmente em resposta às sanções ocidentais. O Nord Stream 2, recém-concluído, nunca chegou a entrar em funcionamento.
Após as explosões, suspeitava-se que a própria Rússia, os Estados Unidos (críticos em relação aos gasodutos por aumentarem a dependência europeia do gás russo) ou a Ucrânia estivessem por trás da operação.
A Alemanha, principal apoio militar de Kiev e vítima recorrente de atos de sabotagem e espionagem russos em seu território, insiste na separação de poderes e não comenta o caso.
A Ucrânia nega ter organizado a sabotagem, mas não esconde sua satisfação, considerando legítimo qualquer ataque capaz de enfraquecer a capacidade do Kremlin de financiar sua guerra.
O tribunal de Hamburgo programou audiências até fevereiro. Se o suspeito for considerado culpado, estará sujeito a vários anos de prisão.
J.L. de Oliveira--JDB