Cineasta Cristian Mungiu conquista segunda Palma de Ouro em Cannes
O cineasta romeno Cristian Mungiu conquistou neste sábado sua segunda Palma de Ouro em Cannes, com o filme "Fjord", uma reflexão sobre a polarização das sociedades. A cerimônia também premiou a dupla espanhola Los Javis.
Fjord conta a história de uma família ultrarreligiosa que se instala em um povoado da Noruega. Tudo parece correr bem, até que autoridades passam a questionar a educação rígida recebida pelas cinco crianças, criadas longe do YouTube, de videogames e de celulares.
"O que eu sinto é que as sociedades de hoje estão fragmentadas, radicalizadas. E este filme também é um compromisso contra qualquer forma de integrismo", disse o cineasta romeno ao receber o prêmio, enregue pela atriz Tilda Swinton.
"É uma mensagem em favor da tolerância, inclusão e empatia. São termos magníficos, que todos nós apreciamos, mas que devem ser aplicados com mais frequência", acrescentou Mungiu sobre o filme, estrelado pela atriz norueguesa Renate Reinsve e pelo ator americano Sebastian Stan.
- 'Que os massacres terminem' -
O Grande Prêmio, o segundo mais importante, foi para "Minotaur", do cineasta russo exilado Andrey Zvyagintsev, sobre um empresário que descobre a infidelidade de sua mulher. O filme tem como pano de fundo a guerra na Ucrânia.
"Milhões de pessoas em ambos os lados da linha de frente sonham com apenas uma coisa: que os massacres terminem", declarou o cineasta em seu discurso de agradecimento, feito em russo e traduzido para o francês.
"A única pessoa que pode pôr fim a essa carnificina é o presidente da Rússia (...) O mundo inteiro espera", clamou Zvyagintsev.
A dupla espanhola Javier Calvo e Javier Ambrossi, conhecida como Los Javis, ganhou o prêmio de melhor direção por "La Bola Negra", juntamente com o cineasta polonês Pawel Pawlikowski por "Fatherland".
- Humanidade -
"O filme fala de humanidade, de ver o outro como um ser humano", disse Calvo ao receber o prêmio pelo drama histórico, que entrelaça a vida de três homossexuais em três épocas distintas, e que tem como pano de fundo uma obra inacabada do dramaturgo espanhol Federico García Lorca.
O filme, que conta com Penélope Cruz e Glenn Close, foi uma das surpesas da competição e recebeu um dos aplausos mais longos desta edição, de 16 minutos, segundo a revista Variety.
Os atores Emmanuel Macchia e Valentin Campagne ganharam conjuntamente o prêmio de interpretação masculina, por sua atuação no filme "Coward", de Lukas Dhont.
"Espero, sinceramente, que este filme permita que os jovens homens, as jovens mulheres, amem-se e se aceitem como são", disse Macchia ao receber o prêmio, entregue pela atriz americana Geena Davis.
A belga Virginie Efira e a japonesa Tao Okamoto levaram o prêmio de interpretação feminina, por seu trabalho em "All of a Sudden", do japonês Ryūsuke Hamaguchi, que mostra duas mulheres que refletem sobre o impacto do capitalismo e como lutar por uma sociedade mais humana.
"The Dreamed Adventure", da alemã Valeska Grisebach, conquistou o Prêmio do Júri, e o melhor roteiro foi para o francês Emmanuel Marre, por "Notre Salut", uma história baseada em seu bisavô.
A edição deste ano do Festival de Cannes foi dominada pelo cinema histórico, por filmes com temática LGBT e por uma forte presença de filmes espanhóis. O evento, que começou com um debate sobre a coexistência entre política e arte, contou com momentos memoráveis, como o discurso de Pedro Almodóvar sobre a atualidade.
H. de Araujo--JDB