Empresa francesa de IA Mistral visa fortalecer sua posição no setor de defesa
A empresa francesa de inteligência artificial Mistral quer acelerar sua presença na indústria de defesa e reforçar suas capacidades de computação, para se posicionar como alternativa europeia aos gigantes americanos do setor.
A empresa anunciou, nesta quinta-feira (28), durante sua primeira conferência dedica à IA em Paris, parcerias com o fabricante de automóveis alemão BMW e a fabricante aeronáutica europeia Airbus para aplicar tecnologia de simulação de impactos aos processos industriais.
Trata-se principalmente de melhorar a segurança dos voos, implantando inteligência artificial na cabine do avião, mas também de contribuir para o projeto e a construção de novos aviões graças à simulação digital, explicou o presidente da Mistral, Arthur Mensch.
No caso da BMW, a Mistral fabricará modelos específicos "que incluem a física" dos veículos e que permitirão otimizar os exercícios de simulação de impacto.
Para desenvolver essas aplicações, a Mistral adquiriu, em meados de maio, a empresa austríaca Emmi AI, especializada na simulação digital para a indústria, e a empresa francesa Koyeb, fornecedora de serviços em nuvem sem servidor.
"É um mercado no qual a Europa é forte, com empresas industriais de ponta", como a Airbus e ASML, a gigante holandesa que entrou no capital da Mistral em 2025, destacou Mensch em coletiva de imprensa.
Segundo ele, "os cenários mais importantes de uso da inteligência artificial se situam na atividade de pesquisa, desenvolvimento e na criação de objetos", para além dos modelos de linguagem (LLM) e dos robôs de conversação (chatbots).
No setor dos transportes, a Mistral firmou, em 2025, outra parceria estratégica de cinco anos com a terceira maior companhia de navegação do mundo, a CMA CGM, também presente no setor dos meios de comunicação.
Após a Mistral ter enviado cerca de vinte engenheiros às equipes da CMA CGM e CMA Media, a companhia marítima francesa passará a utilizar, a partir de 1º de junho, uma nova plataforma de IA, chamada "Maia, powered by Mistral", que poderá se usada por 80 mil de seus colaboradores no transporte marítimo, na logística e na mídia, indicou a CMA CGM em um comunicado nesta quinta-feira.
- Defesa e computação -
A aposta da Mistral ocorre em um momento no qual a Europa busca reduzir sua dependência digital e militar dos gigantes americanos.
Mistral colabora com o Ministério das Forças Armadas da França e com o exército de Singapura, segundo a revista Forbes.
Fundada há três anos, Mistral, que tem mil funcionários, também desenvolve suas próprias infraestruturas de computação para se desvincular das empresas americanas que dominam o mercado europeu de nuvem e gerar receitas.
A empresa investe 4 bilhões de euros (cerca de 23,5 bilhões de reais) em centros de dados na França e na Europa, e está desenvolvendo um centro de dados no sul de Paris e outro na Suécia.
No entanto, seus planos são modestos em comparação com outros no exterior, como o projeto de centro de dados batizado de Stargate, de 500 bilhões de dólares (aproximadamente 2,5 trilhões de reais), apoiado pelo governo dos Estados Unidos e liderado pela Softbank, Microsoft e Nvidia.
- Assimetria de recursos -
"Não temos o balanço financeiro da Microsoft", reconheceu Mensch. "Não podemos colocar 50 bilhões sobre a mesa para construir um gigawatt antes que haja demanda".
O executivo defende ainda o estabelecimento de uma "preferência europeia" nos serviços digitais, ou seja, a obrigação de recorrer a fornecedores europeus nos contratos públicos relacionados à IA ou à nuvem.
A assimetria de recursos em relação ao titãs americanos é evidente.
Enquanto a Mistral aspira a alcançar o equivalente a 1 bilhão de dólares (cerca de 5 bilhões de reais) de receita para final de 2026, a Anthropic gerou cerca de 45 bilhões de dólares (aproximadamente 227,5 bilhões de reais) em faturamento em base anual, ou seja, extrapolado a partir das receitas recentes, segundo o site especializado The Information.
Combinados, os gigantes tecnológicos americanos preveem um pacote de 750 bilhões de dólares (cerca de 3,7 trilhões de reais) em despesas de investimento para este ano, enquanto Mensch mencionou 1 bilhão de euros (aproximadamente 5,5 bilhões de reais) em janeiro.
Por esta razão, periodicamente circulam rumores de uma possível compra por parte de um agente estrangeiro.
Uma operação deste tipo só ocorreria se o governo francês não apoiasse a Mistral "em todas as etapas de seu desenvolvimento", explicou a ministra francesa de Assuntos Digitais, Anne Le Hénanff, à AFP.
Para Mensch, a independência passará sobretudo por uma abertura de capital no futuro, "a fim de proporcionar essa alternativa" europeia, como havia informado em meados de maio perante a Assembleia Nacional.
A Mistral assinou um acordo com a Agence France-Presse (AFP) para utilizar suas notícias para responder às solicitações de seus usuários.
M.A. Pereira--JDB